Querer

Eu queria escrever alguma coisa que me desse esperança. Ou uma ode a todos aqueles que eu amo e sou grata. Pra me lembrar de tudo aquilo que eu tenho, todo o suporte e todo o amor que me cerca. Porque toda vez que eu me faço esse lembrete sou inundada por uma onda de paz e um sentimento que aquece por dentro – me faz acreditar que tudo vai ficar bem- aconteça o que acontecer.

Mas talvez nesse momento eu só queira estravasar. Estravasar todos os sentimento ruins e desconfortáveis como um copo que transborda e expele todo o líquido que tinha dentro de si, até ficar vazio. O vazio parece extremamente confortável – entenda- porque tem uma semblância com ausência, com dormência. Ausência de sentimentos, dormência em sensações. Te protege de tudo aquilo que te incomoda. Claro, também te impede de sentir qualquer coisa de melhor, de prosseguir talvez. Mas quem dói quer alívio. Às vezes a qualquer custo.

Ou talvez, ainda, eu só queira muito tentar as coisas fazerem dar certo. Usando de qualquer apoio que eu consiga pensar e qualquer apoio que eu consiga encontrar, eu quero tentar fazer. E nessa perspectiva, quem sabe escrever sobre isso não ajuda? Quem sabe conversar sobre isso não ajuda? Quem sabe uma decisão que parece uma ótima ideia no momento não ajuda?

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Um milhão de coisas

Nada me é mais caro que estar livre de compromissos.

Passar dias sem ter nenhum prazo, nenhuma obrigação, nenhuma ansiedade.

Porém, é engraçado, esse sentimento de ter vontade, querer fazer coisas, ir para lugares e encontrar pessoas a meu bel prazer, e ao mesmo tempo não ter nada que realmente prenda a minha atenção. Eu quero ter vontade, mas não tem nada que eu verdadeiramente queira fazer, ou algum lugar que eu almeje ir, ou alguém que esteja louca para encontrar.

É como estar em um reino com um milhão de possibilidades e ao mesmo tempo não querer nenhuma.

Não tem nada que eu queira.

Eu queria querer…

 

Estou em um ponto que às vezes é como se faltassem palavras…

Imagine que você tem um grande desejo. Mas esse desejo é secreto, tão secreto que você guardava lá no fundo da alma. Ainda assim você é consciente dele, é como se aquilo sempre estivesse presente enquanto você crescia, fazia planos, imaginava o futuro…

Só que então acontece o impensável, ou o mais temido, você descobre que não estava à altura desse desejo.

Acontece que desejos vem de aspirações, elas precisam se tornar reais em algum momento para que você alcance o que deseja, mas o que se sucede quando você perde coisas pelo caminho? Pode ser o foco. Pode ser a dedicação. Pode ser a força… Pode ser a vontade….

O problema é que o desejo permanece, mesmo quando não há nada para suportá-lo. E em alguns casos, só se percebe que se perdeu tudo, bem de repente. Você está olhando pela janela do ônibus e percebe: E agora? Não tenho a menor chance!

E é tão degrandante! Notar assim, de um estalo, que não tem nem mais pra onde correr… Porque você já perdeu todas as oportunidades, caminhou no sentido do vento pra não ter que pensar, estava assustado demais para tentar outra coisa… Você percebe que não era tão inteligente assim, nem tão sensato. Era só estúpido e estava dentro de uma bolha.

É tão ruim descobrir que você é estúpido, não aquela pessoas que faz coisas estúpidas de vez em quando,  mas simplesmente uma pessoa estúpida.

Dor

Sinceramente, como você lida com situações que causam dor?

Porque eu fico paralisada. É engraçado, podem ser coisas menores, que não seriam um problema para a maioria das pessoas, como decidir seus horários do semestre letivo, mas me causa tanto medo. Tenho medo de não dar conta, de ser um horário que vá me deixar esgotada, de detestar a escolha que eu fiz, das pessoas descobrirem que eu não consigo lidar com aquilo, do que vão pensar. E afinal, com as minhas escolhas quem sofre sou eu, sofro sozinha. E esses medos crescem, a ansiedade e angústia fazem com que seja difícil respirar e eu sinto dor.

Dor causada por uma coisa tão simples, mas dor de qualquer jeito.

Sinto que isso já está virando uma piada, de tanto que eu falo sobre, de tanto que eu penso nisso. E ainda assim não parece ficar mais claro, não fica mais fácil, não parece ter uma solução. Eu só falo sobre. De novo e de novo. Parece ter perdido o sentido às vezes.

Daqui pra frente

Então a Pec 55 foi aprovada.

Não tenho nem por onde começar a dizer o quanto isso será uma corrida desabalada até o inferno.

Os investimentos em seguridade social, educação e Deus-sabe-mais-lá-o-quê estão congelados por vinte anos. Desconsiderando que eles já não eram suficientes, desconsiderando o quanto o atendimento público já não atendia as necessidades da população, desconsiderando que a população vão crescer, desconsiderando quantas pessoas vão morrer devido à falta de recursos que esses cortes vão gerar.

Eu ainda não sei se devo ficar chocada com o resultado de tudo isso, ou não.

O engraçado é que por mais que houvessem críticas sérias à essa emenda, que provavam que ela era inconstitucional, que ela seria destruidora; nada disso foi o suficiente. Talvez nunca nem tenha importado. Mas pra mim foi um ensinamento valoroso, não dá pra confiar em ninguém. E as pessoas não fazem sentidos. Elas não são lógicas, não são empáticas e são capazes de dar um tiro no próprio pé se acreditarem que aquilo irá lhes beneficiar.

Eu estou enjoada. Enojada com o futuro.

Daqui pra frente só consigo projetar desgraças. Posso muito bem jogar meu diploma na lata do lixo. Que inferno não vai ser trabalhar na educação pública…

E me sinto culpada, não fiz o que deveria. Pelo menos para poder dizer que lutei contra isso. Só fiquei bem assustada.

Sinceramente, perdi minha vontade de fazer qualquer coisa. Eu já não conseguia me ver realizando um trabalho que me deixasse bem, agora não consigo nem imaginar como vai ser minha vida. Brinquei com a ideia de imigrar para outro país se a pec passasse, mas não sei se tenho coragem de deixar tudo pra trás. O paradoxo é que aqui, provavelmente, também não vai ter nada pra mim.

A parte mais macabra é que, apesar de ser um futuro sombrio para a minha categoria, será muito mais tóxico para a parcela mais pobre da população. Se eles já estavam em uma situação alarmante de vulnerabilidade social, imagina agora.

E o que me faz pensar que tenho que reavaliar a minha vida é essa percepção de que não existe ninguém que vá fazer nada, que vá lutar por mim, pelos outros, que vá dar a cara a tapa. E ao mesmo tempo eu nem sei se tenho a coragem e a fibra necessárias para lutar por mim. É muito triste almejar ser um protagonista durante toda a sua infância e depois perceber que é só uma covarde.

Coisas de filmes e livros.

Sabe o que é engraçado?

Minha percepção de mundo.

Quando eu era mais nova lia vários livros de literatura. Sempre fui tímida e meio introspectiva. Ou seja, tinha dificuldade de falar com as pessoas, era muito quieta, sempre ficava na minha. Ainda sou assim. O que aconteceu: os livros acabaram virando meus parâmetros de percepção do mundo.

Através das histórias, entrava em contato com personagens e situações que nunca havia experimentado na vida real. Eu sempre senti empatia pelas pessoas, não posso dizer até onde eu conseguia me colocar no lugar da outra pessoa e sentir o que ela sentia, mas isso me dava a possibilidade de realmente viver as histórias que eu lia.

Então, várias vezes minha reações a situações que eu vivia eram baseadas em algo que eu havia lido. Eu levava em consideração o que o personagem havia feito, qual era a sua intenção, quais foram as consequências. Tudo isso se tornava base para as minhas ações. O que me surpreendia era que nem sempre as consequências eram as mesmas: às vezes as respostas aos meus atos eram completamente diferentes do que eu esperava. Bem, a vida é imprevisível.

Os livros eram uma referência mais forte para mim, mas não eram a única. Existiam os filmes, os desenhos animados, as séries. Existem certos clichês de personalidades de personagens e experiências que eles vivem que acabam perpassando todas essas obras. Mas só porque você já assistiu uma coisa mil vezes, não significa que está preparada pra lidar com ela. Apesar de dar uma impressão falsa de que você está. E é aí que o circo pega fogo e tudo desanda.

Eu sempre vivi dentro da minha bolha. Existem as pessoas de quem eu gosto e com quem me sinto a vontade. É com essas que eu busco me relacionar e estar perto. As pessoas que me incomodam e das quais eu não tenho uma boa opinião me distancio o máximo possível. É um verdadeiro suplício ter que interagir com elas, então procuro todas as formas de evitar isso. Se isso me torna incompetente em inter-relações no geral é algo que ainda não parei para analisar com profundidade. Enfim, realmente limito minhas saídas, os lugares para onde vou, simplesmente porque tenho dificuldade de lidar com muitas coisas. Mas na minha bolha eu estou feliz, e no ensino médio eu me fechei em uma bolha. Tinha um grupo de amigos com os quais me dava muito bem, e simplesmente parei de ter qualquer tipo de interações ou de tentativas de interações com outras pessoas. Eu tinha tudo que precisava ao meu alcance. Meus julgamentos e minhas percepções eram suficientes para aquele mundo.

Só que me formei. Fui para a universidade. Era um mundo totalmente distinto.

Não foi fácil, foram anos de adaptação, estranhamento e ansiedade. Sem conseguir lidar calmamente com situações mínimas, como por exemplo: falar com um professor em particular, resolver um problema na coordenação, conversar com os meus colegas sobre as minhas dúvidas.

Eu descobri muitas coisas. Eu sempre tive a impressão de que em livros e filmes existiam personagens absurdos demais: cruéis demais, fúteis demais, desagradáveis demais, estúpidos demais. Eu descobri que não era ficção.

Imagine minha surpresa.

Imagine minha surpresa ao notar que todos aqueles personagens que eu acreditavam impossíveis de existir eram reais. Que os estúpidos filmes adolescentes, não são tão estúpidos assim. Que os heróis e heroínas da literatura são os que de fato não existem.

E que todas as minhas esperanças de quem eu esperava me tornar não passaram de um delírio de criança.

De repente o mundo se tornou um lugar muito maior, muito mais incrivelmente vasto. E eu não tinha nenhuma referência para entender aquela expansão.

Nada do que eu havia lido, do que eu havia assistido dava conta daquela realidade.

E eu travei.

 

 

 

 

Mais uma vez

Muito bem.

Hoje é o último dia em que eu tenho 21 anos, e esse ano me serviu muito mal. Sim, essa é a minha resposta ao meu EU de 16/17, porque sempre tive vontade de conversar com a minha versão mais jovem. Sempre acreditei que seria essa conversa que me colocaria de volta nos eixos, que consertaria minha vida, sei lá.

A razão pra querer falar comigo, um EU de outras épocas, com outros conhecidos, outras dificuldades; seria talvez para entrar em contato com uma parte vital de mim. Ou pra me lembrar de muitas coisas que eu me prometi que não iria esquecer,mas que deixei pra trás mesmo assim. Talvez fosse para resgatar um senso de identidade que, hoje em dia, estou convencida de que perdi.( E que, convenhamos, é essencial. O que resta de si quando se perde sua identidade? Você não se torna só uma carcaça assistindo a vida como se fosse novela e sendo impelida pelo vento?)

Mas, voltando ao problema em questão. Essa é a minha resposta, e talvez meu pedido de desculpas. Faço 22 anos amanhã e o que isso significa? Deixei os 16 anos há muito tempo. E talvez…Ainda seja a idade que me contempla. Não posso dizer com certeza.

Sim! Envelhecer e crescer são duas coisas que não são intrínsecas, conheço pessoas de 40 anos que se envolvem em picuinhas como crianças e meninas de 15-18 anos que são super responsáveis com o próprio futuro e com as pessoas a sua volta. Além disso, quanto mais o tempo passa e mais assustada eu me sinto com relação a enfrentar pessoas e situações, menos eu acredito na minha capacidade de crescer e me superar.

Com 21 anos eu não sou qualificada enquanto adulta. Não dirijo, não trabalho, levo minhas obrigações da faculdade como um fardo, não sei interagir com pessoas(mesmo da minha família), não consigo mediar conflitos, não faço a menor ideia do que fazer no autoatendimento do caixa eletrônico, burocracia me aterroriza, figuras de autoridade me apavoram, situações desconfortáveis ainda me deixam travada. E a parte mais engraçada é que eu nunca imaginei que seria assim tão incapaz com essa idade, imaginei que já teria conquistado coisas.( não necessariamente ligadas à trabalho, mais voltadas para crescimento pessoal) E então me vejo retornando aos mesmos problemas de quando eu tinha 16, às vezes de uma forma ainda mais intensa, e não consigo controlar esse retrocesso.

A idade já não significa mais nada para mim. Talvez porque não me represente mais. Eu acreditava que uma pessoa de 20 e poucos anos seria mais capaz, mais resolvida. Minha realidade não poderia estar mais distante dessa crença. O meu aniversário, por outro lado, ainda é uma data pela qual eu espero ansiosamente. Inexplicavelmente, ainda me sinto especial nesse dia. Não porque outras pessoas me fazem sentir dessa forma, não porque haverão comemorações, ou presentes. Mas porque eu me permito ter o direito de me sentir especial, de que eu posso fazer uma coisa que eu quero, mesmo que seja só por hoje.

Porém, *TOC* *TOC* – é a realidade batendo, amanhã vou ser presa do cotidiano: aula de manhã e à tarde, psicólogo e evento à noite, devo chegar em casa umas 22:00. Imagine minha satisfação.

Talvez a alegria de ter reencontrado esse blog – justamente hoje – seja todo o sentimento especial que eu vou conseguir alcançar. O sentimento agradável de poder ler esses textos mais uma vez e relembrar antigas esperanças é renovador.

Minha querida Rebeca de 16 anos, me perdoe. Perdi muitas coisas pelo caminho. Meu desejo de viver, minha sede por leitura, minha capacidade de enfrentar desafios, minha empolgação, meu encantamento, minha empatia. As minha forças se extinguiram, matei minha vontade de aprender, joguei minha coragem na lata do lixo.Desculpe lhe trair e aviltar dessa forma. Só queria o melhor pra você, ainda que o melhor não fosse o convencional. Não foi com isso que que terminei.. Eu já não sei mais porque eu choro…

Ter 21 anos não foi fácil. Não porque os desafios foram gigantescos, mas porque ao levar uma topada, uma coisa menor, me sentia como se tivesse sido esfaqueada. Os probleminhas do dia-a-dia se tornaram gigantes. E eu me tornei pequena.

Finalmente, a mim mesma: todo o meu amor. Para ver se preenche aquele buraco que eu criei no peito, ou simplesmente para ser legal comigo mesma pelo menos uma vez.

Vinte e dois, seja gentil…

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